20 dias sem chorar

pelo menos hoje fiz tudo
sem pressão, imagina
mal noto a dilatada retina
e a unha roída de ansiedade

reclamei, taí o almoço pronto
mas que dia é hoje?
a insônia faz surgir o bronco
não faço ideia de que dia é hoje

silêncio

ouço o meu coração bater
meu pulmão expandir, sim
meu pensamento fluir, sim
e finalmente me ouço

e choro

hoje é domingo.


não quero tomar estas decisões
tão frugais, tão fatais
imersas em tantas milhões
versões da minha paz

afinal, os fins justificam os meios
ou os meios justificam os fins?

uma ode aos nossos inícios sem finais


perdi a conta no décimo entre vários copos
os olhos já lutam pra se manterem abertos
certos de que já não haveria um amanhã
afogados enfim esses sentimentos incompletos

entre bêbados trôpegos e exasperados, lá está ela
com os mesmos olhos quase cerrados e opacos
reconheço-os quase que imediatamente
os mesmos incompletos sentimentos afogados


medos, imagens, cheiros, sons
você se lembra da sua infância?
muitas viagens, cheiros bons
mas qual era mesmo a distância?

o gigante se apequena, a alma viva se depena
como era boa a ignorância

respostas vêm, gênios fortes se esvaem
temores em letras garrafais
não tenha saudade do que eras antes
tenha saudade de você mesmo


mais um dia raiou
os olhos resistem ao despertador
os pés resistem ao chão gelado
a mente resiste à coragem

os prazos se acumulam com velocidade
com cada vez menos tempo de validade
deveres inacabáveis
e socializar com quem não sente saudade

tempo?
finalmente vi sua verdadeira face
e descobri minha relação com ele
escravo do tempo

tudo o que eu faço é na busca de sentir algo
imerso em altos e baixos, acertos e erros
sigo por esse caminho tão tortuoso
por isso ele é tão meu


viajamos anos-luz Universo adentro
confirmamos as mortes das estrelas que vocês veem no céu
visitamos cada corpo celeste que se fez visível
guardamos cada substância coletada como um troféu

mas sinto falta…

o lado em que a Ciência está é o nosso
minha biologia não mais dita o que posso

ainda sinto falta…

finalmente contemplo minha última vista
cores explodindo, iluminando o olhar que salta
será o descanso eterno aquilo que me falta?
talvez deus seja mesmo um astronauta…


o barulho da chuva virou o pano de fundo das tardes
levanto-me do sofá e passo a mão na janela embaçada
penso ter visto o vulto deles e volto a sentar satisfeito
logo tudo seca e poderei voltar pro quintal

desvio os olhos das formas sem vida da televisão
minhas aventuras são bem mais divertidas
começam e terminam na hora que eu quiser
meu próprio filme de ação

embriagado em minhas fantasias, adormeço
sem me dar conta que a enchente está os levando
desta vez são eles que precisam da minha ajuda
mas acordo tarde demais

meus heróis estão me deixando
quem assumirá os seus lugares?
só restam lápides improvisadas
e aqui não temos bonecos de neve…

Victor Brayner

Entusiasmado. Entusiasta.

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